Fala turma, vamos começar o primeiro Hodler do ano olhando para uma das principais discussões que temos hoje no mercado: o dólar vai quebrar?
Eu estou observando muito isso, até porque gosto muito de história e como ela se repete de tempos em tempos. Enquanto o Congresso dos EUA discute o teto da dívida (de novo) e os pagamentos de juros da dívida americana ultrapassam o orçamento de defesa, a pergunta volta com força: o reinado do dólar acabou? A resposta curta é “não”.
A resposta longa é que o mundo não está trocando o dólar por outra moeda fiduciária, mas sim migrando para um sistema fragmentado onde Bitcoin e Stablecoins comem a liquidez pelas bordas. O rei não está morto, mas o castelo está rachando.
Vamos para mais um Hodleeeer!
🔍 Deep Dive: A Mutação do Dinheiro
Esqueça a manchete sensacionalista de que o Yuan chinês vai dominar o mundo amanhã. O cenário real que observamos nos dados de 2025 e início de 2026 é mais complexo e fascinante:
Deixa eu apresentar A Teoria do “Milkshake” na Prática. Ela é a tese econômica mais importante da década, criada pelo gestor Brent Johnson. Ela explica por que, contra todas as apostas de colapso, o dólar continua se fortalecendo enquanto o mundo queima. E com a entrada das criptos e o Genius Act, essa teoria ganhou anabolizantes.
- O Milkshake (Liquidez Global): Desde 2008, todos os Bancos Centrais do mundo (Europa, China, Japão, Brasil) imprimiram trilhões em dinheiro para tentar estimular suas economias. Esse dinheiro todo é o “milkshake” espalhado pelo copo (o mundo).
- O Canudo (Juros e Segurança): Os EUA têm o mercado mais profundo, as taxas de juros reais mais atrativas (comparadas a Europa e Japão) e a segurança jurídica (relativa). Isso cria um “canudo” gigante.
- A Sugada: Quando o Fed (Banco Central Americano) aumenta os juros ou o mundo entra em pânico (guerras, crises), os EUA sugam esse milkshake. O capital foge do Brasil, da China e da Europa e corre para o Dólar.
Resumindo: Ironicamente, em momentos de crise global, o capital ainda foge para o dólar, não do dólar. Por quê? Porque Europa e China têm problemas estruturais piores. O dólar continua sendo a camisa suja mais limpa do cesto.
📜 A jogada de mestre
Você ouviu falar do “Genius Act” e achou que era exagero? Pense de novo. A assinatura do Guiding and Establishing National Innovation for US Stablecoins Act (GENIUS Act) em meados de 2025 não foi apenas uma regulação; foi a maior jogada de xadrez financeiro do século. Enquanto o mundo debatia se o Bitcoin mataria o dólar, os EUA cooptaram o inimigo. Agora, cada USDT ou USDC na sua carteira está, silenciosamente, financiando a dívida americana.
O mercado de stablecoins ultrapassou US$ 300 bilhões em valor. Isso não é “ataque” ao dólar; é uma atualização. O mundo quer dólares, mas não quer os bancos americanos lentos e burocráticos. Eles querem dólares na blockchain (USDT, USDC). O dólar está se tornando o “layer de liquidez” da internet.
Pense comigo…
Antes: Para um argentino fugir do Peso e comprar Dólar, ele precisava ir a uma casa de câmbio física ou ter conta offshore (difícil e lento). O “canudo” tinha atrito.
Agora (2026): Qualquer pessoa com um celular em Lagos, Istambul ou São Paulo compra USDT em segundos.
A Ironia: Ao tentar fugir do sistema fiduciário local, o mundo está dolarizando a economia global via cripto. O Genius Act canaliza todo esse fluxo diretamente para a Dívida Americana. As criptomoedas não mataram o dólar; elas deram a ele capilaridade infinita.
Isso lembra a criação do Eurodólar nos anos 1950. Naquela época, a União Soviética e outros países queriam dólares, mas tinham medo de deixá-los em bancos de NY (para não serem confiscados). Eles depositavam em bancos europeus, criando um mercado offshore massivo que impulsionou a hegemonia do dólar globalmente. As Stablecoins são os Eurodólares 2.0: dólares que vivem fora do sistema bancário, mas que servem ao Império da mesma forma.
A verdadeira ameaça à hegemonia fiduciária não é outra moeda estatal, é a Reserva Estratégica de Bitcoin. Com discussões avançadas nos EUA sobre manter BTC no balanço do Tesouro (após a ordem executiva de 2025), o Bitcoin deixou de ser “dinheiro de internet” para virar colateral soberano. Países estão percebendo que precisam de um ativo que ninguém pode congelar.
🌍 Macro & Geopolítica O maior inimigo do dólar não é a China ou o BRICS, é a Aritmética.
Os EUA estão pagando quase US$ 1 trilhão por ano apenas em juros da dívida. Isso cria um ciclo vicioso: imprimir mais dinheiro para pagar juros, gerando inflação e desvalorização no longo prazo.
O uso do dólar como arma geopolítica (congelamento de reservas russas/iranianas) acelerou a busca do “Sul Global” por alternativas. O resultado não é o fim do dólar, mas a perda do seu monopólio. O comércio de petróleo e commodities está migrando para moedas locais e, silenciosamente, para liquidar em cripto.
Muitos acham que moedas de reserva mudam da noite para o dia. Errado. O Florim Holandês dominou o século XVII. A Libra Esterlina dominou o século XIX e início do XX. A Libra não perdeu o posto em um dia. Foi um processo de décadas de endividamento (principalmente após a 1ª Guerra Mundial) até que, em 1944 (Bretton Woods), o Dólar assumiu oficialmente. A lição? Impérios monetários caem lentamente, depois de repente. Estamos na fase do “lentamente”.
💡 Conclusão do Hodler
O dólar não vai virar pó amanhã, e apostar contra ele no curto prazo é perigoso (o mercado é irracional). Mas a tendência secular é clara: a diversificação para fora do sistema fiduciário.
O que fazer? Não tente adivinhar o “topo” do dólar. Foque em acumular os ativos que servem de “bote salva-vidas” quando a maré subir: Bitcoin (reserva de valor neutra) e Stablecoins (dólar tático para oportunidades).


