Relatório do mercado de criptoativos: junho/2018 Foxbit Invest

Relatório do mercado de criptoativos: junho/2018

Foxbit Invest

Com poucas exceções, o primeiro semestre de 2018 será lembrado como um período de fortes correções nos preços dos ativos digitais. Apenas em junho, o ecossistema como um todo perdeu 30,55% em capitalização de mercado e fechou o mês avaliado em torno de US$255 bilhões. O tombo poderia ter sido ainda maior não fossem os bons resultados dos dois últimos dias do mês, que registraram o início de uma tentativa de recuperação.

Em junho, o Bitcoin chegou a atingir, no dia 24, a cotação de US$5,775 – o menor preço registrado neste ano – e obteve desempenho negativo acumulado no mês de 15,31%, negociado no final do período por US$6,351.

Apesar da expressiva retração do mercado, o Bitcoin atuou como uma espécie de porto seguro para os investidores que possuíam exposição em outros criptoativos, isso porque todos os principais ativos digitais sofreram desvalorizações ainda maiores quando comparados ao dólar americano e também ao próprio Bitcoin, como podemos observar nas tabelas abaixo.

 Variação em Dólar

preço bitcoin variação

Fonte: Foxbit Invest

Variação em BTC

preço bitcoin variação bitcoin tabela

Fonte: Foxbit Invest

A depreciação dos ativos em relação ao Bitcoin indica possivelmente dois cenários:

  1. i) que os investidores estão fechando posições em altcoins e mantendo-se no mercado por meio do Bitcoin;
  2. ii) que os investidores estão fechando posições em altcoins e retornando o capital para moeda fiduciária (fiat money) e estão utilizando o Bitcoin como porta de saída.

O primeiro desses movimentos pode ser verificado na variação da participação de mercado de cada ativo. Nota-se, por exemplo, que em períodos de forte venda de ativos a dominância de mercado do Bitcoin tende a crescer. Em junho, o Bitcoin iniciou o mês com 38,68% de market share e terminou o período com 42,75% da fatia total do mercado.

Curiosamente, quando o mercado iniciou uma recuperação nos dois últimos dias do mês, o Bitcoin começou a perder espaço para outros ativos. Isso reforça a percepção de que quando o mercado como um todo sobe, as altcoins tendem a subir mais que o Bitcoin, porque ganham valor em relação ao Bitcoin e também em relação ao dólar. O raciocínio inverso também parece proceder, ou seja, quando o mercado como um todo começa a vender, as altcoins tendem a sofrer mais porque perdem valor em relação ao bitcoin e também em relação ao dólar.

Evolução da participação de mercado dos principais ativos digitais em junho

participação bitcoin

Fonte: coinmarketcap.com

Vale a pena observar que além do Bitcoin, o Ether, a Dash e o Monero ganharam ligeira participação de mercado durante o mês de junho. Enquanto isso, a IOTA e a NEO e o Litecoin foram os que mais perderam espaço no ecossistema.

O mês de junho também mostra a manutenção da tendência de redução dos volumes negociados nas principais bolsas de criptoativos do mundo.

preço e volume do bitcoin semanal

Fonte: data.bitcoinity.org

Hash rate e dificuldade da rede

Se tanto o preço dos ativos digitais quanto o volume negociado nas principais exchanges apresentam tendência de queda em 2018, o mesmo não pode ser dito de dois importantes indicadores técnicos da rede do Bitcoin: o hash rate e a taxa de dificuldade da rede.

Essencialmente, o hash rate significa o poder de processamento somado de todos as máquinas de mineração que estão trabalhando no registro das transações de Bitcoin no Blockchain. Quanto maior o hash rate, mais difícil e custosa seria uma tentativa de ataque à rede ou tentativa de fraudar um bloco de transações. Esse indicador reflete fundamentalmente o apetite dos empreendedores da indústria de mineração e o nível de segurança da rede.

Hash rate bitcoin

No gráfico acima vemos a evolução do poder de processamento da rede do Bitcoin. É possível observar que no dia 24 de junho houve uma significativa redução do hash rate em razão do preço do ativo ter atingido a mínima histórica no ano. Isso ocorreu porque muitas máquinas de mineração, alocadas em operações de menor escala em regiões do mundo onde o custo de eletricidade não é tão baixo, não conseguem atingir o ponto de viabilidade financeira para operar e obter lucro quando o preço do Bitcoin cai para menos de US$6,000.

 

Abaixo, temos o gráfico da taxa de dificuldade enfrentada pelas máquinas de mineração para encontrar o número aleatório que lhes concede o direito de registrar um bloco de transações na Blockchain e, por conseguinte, obter a recompensa de 12,5 Bitcoins, além das taxas de transação incluídas naquele bloco.

dificuldade mineração bitcoin

Como se observa, essa taxa segue uma tendência de alta. A razão disso decorre do incremento do número de máquinas na rede do Bitcoin. O algoritmo de ajuste de dificuldade se ajusta automaticamente, de acordo com o total de hash rate presente na rede, para calibrar a disputa entre as máquinas. Em caso de redução do hash rate, o algoritmo demora 2016 blocos de Bitcoin, um período de cerca de duas semanas, para realizar o ajuste de dificuldade.

Em um hipotético cenário de queda do preço do Bitcoin para um nível inferior ao break even do custo de mineração, que hoje está em torno de US$6,000 por Bitcoin, poderíamos ver uma redução do hash rate. Isso poderia causar problemas na rede do Bitcoin, pois menos máquinas estariam operando com uma dificuldade alta durante um período de pelo menos duas semanas.

No caso do Bitcoin Cash, criptoativo originado em agosto de 2017 a partir de uma bifurcação da rede do Bitcoin, existe a possibilidade de se realizar um ajuste de dificuldade de emergência, o que reduz o risco de manter a rede com baixa capacidade de processamento de transações caso um grande número de mineradoras decida deixar a rede.

Ether não é valor mobiliário, mas e a Ripple?

Talvez a notícia mais importante do mês de junho tenha sido uma declaração de William Hinman, diretor de finanças corporativas da Securities and Exchange Commission dos Estados Unidos (equivalente à Comissão de Valores Mobiliários, no Brasil). Segundo ele, o ether, o token nativo da plataforma Ethereum, não pode ser considerado um valor mobiliário (security) devido ao seu caráter descentralizado. O mesmo raciocínio aplica-se ao Bitcoin. O mercado, contudo, ficou especula se outros ativos como o XRP (token da Ripple), que possui controle centralizado da rede, será considerado um valor mobiliário pelo órgão regulador americano.

O caos na EOS

Considerada a maior ICO da história, a plataforma de contratos inteligentes EOS, que conseguiu captar US$4 bilhões ao longo de um ano, foi um dos assuntos mais quentes do mês de junho. Com a previsão de lançamento da sua rede para junho, o criptoativo chegou a obter excelentes valorizações ao longo do primeiro semestre, mas na hora da verdade, a rede não conseguiu resolver os problemas internos de governança e deixou os usuários em compasso de espera.

O projeto recebeu várias críticas de figuras importantes da comunidade de criptoativos que acusaram a EOS de ser uma rede com fortes traços de centralização e censura. Até o fechamento deste relatório, os participantes da EOS ainda discutiam como deverá ser feito o lançamento e operacionalização da plataforma.

FMI X BIS

Em junho, dois importantes órgãos internacionais se posicionaram em relação aos criptoativos. Enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou artigo em sua revista mensal falando que os criptoativos “podem um dia reduzir a demanda pelo dinheiro dos bancos centrais”, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), considerado o banco central dos bancos centrais, dedicou um capítulo inteiro do seu relatório anual para o tema, no qual afirma que a fragilidade e baixa eficiência das transações que ocorrem na rede do Bitcoin e de seus similares decorre justamente da arquitetura descentralizada na qual operam essas plataformas.