Desde 2015, o Bitcoin está passando por uma guerra civil. Usuários e desenvolvedores estão polarizados em relação à forma que o Bitcoin precisa mudar para ser capaz de processar mais transações. Um grupo acredita que o número de transações Bitcoin deve crescer apenas por fora da blockchain. Outro grupo acredita que o Bitcoin deve aceitar mais transações diretamente na blockchain.

Nos últimos meses, a demanda por transações na rede Bitcoin já está muito maior do que o que rede suporta. Como consequência, transações estão sujeitas a elevadas taxas e congestionamentos frequentes. A pressão para aumentar a capacidade da rede está fortíssima. Mas sem consenso entre os desenvolvedores sobre a forma de fazê-lo, ninguém sabe como ou quando a capacidade da rede vai aumentar. Para entender como chegamos até esse ponto, é preciso mergulhar um pouco na história do Bitcoin.

Quando o Bitcoin estava começando, foi implementado um limite para o número de transações por segundo que podem entrar na blockchain, com o intuito de proteger a rede de ataques. Era relativamente barato gerar um grande número de transações falsas, o que forçaria todos os participantes da rede a uma sobrecarga desnecessária. Na época, tal ataque poderia atrapalhar o crescimento da então frágil e incipiente rede. Por isso, Satoshi Nakamoto, o misterioso criador do Bitcoin, estipulou um limite máximo de sete transações por segundo. O limite era centenas de vezes superior à demanda da época, que girava em torno de uma transação por minuto.

Nakamoto assegurou que o limite seria apenas temporário, e seria removido futuramente quando o volume de transações legítimas estivesse maior. Mas Nakamoto deixou a liderança do Bitcoin bem antes da demanda por transações se aproximar ao limite. Em dezembro de 2010, Satoshi desapareceu sem deixar vestígios. Mas mesmo sem o criador, o Bitcoin continuou crescendo, recebendo cada vez mais usuários e transações.

Em 2015, os desenvolvedores do Bitcoin começaram a perceber que com o crescimento constante da rede, em pouco tempo a demanda por transações chegaria até o limite máximo. Era chegado o momento de rever o limite. Começou-se a discutir de que forma o limite seria afrouxado.

Muitos se posicionaram contra qualquer mudança no limite. Alguns acreditavam que o limite temporário deveria se tornar permanente. Para eles, aumentar o número de transações no blockchain poderia tornar o Bitcoin mais centralizado. A discussão se arrastou por anos. Alguns argumentavam que o crescimento da blockchain não implica na centralização do Bitcoin. Outros argumentavam até mesmo um pequeno crescimento no blockchain seria danoso. Dessa forma, nenhuma proposta para aumentar o blockchain foi aceita pela maioria. Até que surgiu uma nova ideia: aumentar indiretamente a capacidade do Bitcoin, efetivando a maioria das transações por fora da blockchain.

Chamada de Lightning Network, a ideia era transformar o Bitcoin em uma rede de consolidação entre canais de pagamentos. A capacidade da rede Bitcoin em si não seria aumentada: ela permaneceria para sempre pequena. Poucas transações seriam feitas na rede Bitcoin, apenas para consolidar pagamentos entre redes.. As demais transações seriam feitas pela rede Lightning. Mas para a rede Lightning poder funcionar, era necessária a aprovação de uma proposta de mudança no protocolo Bitcoin, chamada Segregated Witness (SegWit).

O grupo que acredita que o Bitcoin precisa crescer aumentando o limite da blockchain passou a bloquear o SegWit (e em consequência, a rede Lightning). O grupo que apoia o crescimento indireto sem alterar o tamanho do blockchain, por sua vez, bloqueou todas as propostas visando aumentar o tamanho da blockchain.

Sem consenso sobre qual solução será parte do futuro do Bitcoin, a cripto-moeda segue sem uma solução. Uma atualização sem o apoio da maioria da rede resultaria em uma divisão (fork) do Bitcoin em duas versões paralelas. E ambas as partes do embate reconhecem que tal divisão seria danosa para o Bitcoin. Por isso o embate continuará, até que alguma proposta ganhe o apoio da maioria.

O grupo que apoia o crescimento da blockchain está alinhado na solução chamada de Bitcoin Unlimited, que propõe um upgrade para permitir que os mineradores decidam por aumentar ou diminuir o tamanho dos blocos dinamicamente em resposta à demanda por transações. O grupo que apoia o estabelecimento de um limite permanente para o blockchain se alinhou na aprovação do SegWit, a mudança no Bitcoin que é necessária para o funcionamento da rede Lightning.

Clique na imagem para conferir o infográfico que preparamos para você:

Enquanto o dilema continua dividindo os usuários do Bitcoin, as taxas de transações Bitcoin continuam oscilando, chegando a custar mais de R$3 para realizar uma transação bitcoin. A promessa, que muitos acreditam, de que o Bitcoin seria uma rede para transações rápidas e a baixo custo, está se esvaziando, e muitos já estão apostando em cripto-moedas alternativas.

Ficou com alguma dúvida, assista o nosso FOXBIT Ao Vivo sobre as duas tecnologias.